A GUERRA TOTAL CONTRA O CALIFADO ISLÂMICO
Jornal do Commercio, em 23/09/2014

A declaração de Obama, de guerra sem quartel ao Estado Islâmico, é inédita no próprio quadro da coexistência, desde o último pós-guerra. O acompanhamento, já, pela França e pela Espanha mostra o sentimento de defesa do próprio bem comum, garantido pelo aparelho público contemporâneo. De saída, esse clamor pelo califado traduz a regressão política de repúdio dos Estados-nação, em que se erigiu a modernidade. As execuções patibulares e quase cronometradas de reféns americanos exacerbam o terrorismo da Al-Qaeda no pós-11 de setembro.

Haveria a falar num descarte radical de todo o conceito mesmo da vida política e da defesa das culturas, objeto, hoje, de um reconhecimento universal coletivo. O mais inquietante, também, é o quanto esse novo e tenebroso jihad exorbita do Oriente Médio e está ganhando afiliações em todo o mundo e, especialmente, nos Estados Unidos e nos países mais afluentes da Europa. Desponta, aí, uma inquietante contracruzada frente à civilização e suas conquistas, numa mocidade que deserta, de vez, suas famílias e seus países, para se enfileirar numa militância, sem volta, a serviço do califado. Arguiriam muitos que desponta nesse caso uma resposta do inconsciente coletivo contemporâneo à saturação do quefazer coletivo, na idade do consumismo de massa, e dos estereótipos sem saída do mundo mediático. Paradoxalmente, é um empenho radical pela busca do sentido da existência, que, à míngua do contexto imediato, vai à negação radical, se não ao suicídio coletivo. Não temos precedentes dessa militância dispersiva e cega, ao contrário das cruzadas, nas alianças contra a fé, em toda a rejeição das suas crenças históricas.

Significativamente, a proposta de Obama teve o apoio, também, do Partido Republicano, numa quase unanimidade surpreendente dos Estados Unidos. Ainda que o presidente insistisse na cláusula do não envolvimento direto de tropas americanas nesse desenlace, cingindo-se à destruição aérea, o apelo a providências mais enérgicas parece se desenhar na luta contra o Estado Islâmico. E o passo adiante, decisivo nas próximas semanas, será o dos países limítrofes na agressão sem fronteiras do novo jihad. Levanta-se, como previsível, a resistência síria, mas é nítida a resolução da Jordânia e do Egito, e estritamente estratégica e provisória a do Irã de Rouhani.


Membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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