CHINA,ÍNDIA E A GLOBALIZAÇÃO OBSOLETA
Folha de São Paulo, em 18/07/2013

Este ano crítico de 2013 marca-se pelo epitáfio da Primavera Árabe, na desmoralização em que ora mergulha o Egito, com a prisão de Mohamed Mursi, contra todos os cânones mais elementares do estado de direito. Desnecessário, ainda, atentar-se ao colapso de qualquer progresso institucional na Líbia pós-Kadafi. E a Síria passou a ser um cenário devastado da nova Guerra Fria, num contraponto entre o Irã e o conluio ocidental das rebeldias no Oriente Médio. É como se se removesse, de qualquer forma, todo esse protagonismo emergente na área, suscitado pelos primeiros conflitos tunisianos pela democracia.


Nesse contexto esvaziado, perguntar-se-ia pela dita nova globalização não hegemônica, na expectativa da tomada de cena pelos BRICS. No seu centro se encontram a relação entre a China e a Índia e, de logo, a pergunta e o espanto: ambas controlam quase metade da população mundial e continuam a se dar as costas? Não se trata da mera demora na distribuição de possíveis e futuras áreas de influência. Mesmo porque ambas as nações-continente sempre se viram voltadas para a imensidade do seu interior, cujas culturas mal se abalam pelo progressismo ocidental ou pela modelagem contemporânea dos Estados-nação. O peso nas suas próprias gravidades desvia o conflito das superpotências. Mas a inédita conferência, de há poucos dias, entre os dois chefes de Estado de ambos os países mostra o quase vácuo da agenda China-Índia, numa quase demissão do que sejam esses papéis diante da nova globalização. Esse quadro não admite espaços vácuos, nem, sobretudo, a tolerância com as velhas desestabilizações, suscetíveis de retomar o velho status quo das Guerras Frias, frente ao que seria o ganho histórico de nosso tempo, marcado pelo descarte da dominação ocidental. Mas, ao mesmo tempo, a evitar esse enlace regressivo e fundamentalista do poder político com o religioso, tal como expresso pela Fraternidade Muçulmana, no Egito. Ou uma prospectiva que começa a se delinear pela condenação do Islã, em Burma, em novo movimento de radicalismo budista, proscrevendo as minorias corâmicas no país. Independentemente das vicissitudes do próprio e intrínseco progresso democrático, as duas nações-continente assentariam um marco, definitivamente não regressivo, no descarte das religiões de Estado, na prospectiva de nosso tempo. E espanta o quanto os Estados Unidos, no seu apoio aos golpistas no Egito, descartam, em nome da Realpolitik, o seu apoio à dita cláusula pétrea de apoio aos estados de direito e aos governos legitimamente eleitos.


Membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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