FRANCISCO, ALÉM DA RETÓRICA DA POBREZA
Jornal O Globo, em 22/07/2013

O Papa dos confins faz, agora, ao Brasil, a primeira viagem fora do cenário de Roma, na busca da sintonia com o nosso tempo. Depois do Vaticano II, investe-se da responsabilidade de um recado, e esse não pode escapar ao profético, no magistério da Igreja. No capital de expectativa que granjeou, só reforça a sutileza nos gestos, ao lado das palavras e da visão implacavelmente pública de cada um de seus passos. Soube, já, evitar a retórica fácil da simplicidade, no manter um cotidiano, tão seu, do ex-arcebispo de Buenos Aires, no descarte do luxo pontifício, desde a troca da cruz peitoral.


Na fidelidade ao Vaticano II, avulta frente aos seus predecessores que vieram ao Brasil, no descarte da teologia da libertação, de João Paulo II, e nas limitações da retomada ecumênica, com Bento XVI. O novo papado pede, mais que tudo, e para além de uma correição doutrinária, a prospectiva, inseparável de um primeiro recado e do direito à expectativa do povo fiel. A atualidade da palavra não está na repetição do corpus tradicional, mas na vitalização da esperança, que só nasce do concreto, do nosso “ser no mundo”, e de sua consciência para além da purga do mal-estar cotidiano. Por força, o timbre da mensagem se esbaterá, na simples repetição dos interditos da doutrina, da condenação do aborto, das limitações da eugenia, ou do casamento homossexual. O real que desabrocha defronta-se, na sua verdadeira tensão, na fala sobre a injustiça social, e a plangência de sua denúncia, muito mais do que na mobilização de uma humanidade para além de seus credos ou alianças, libertadas de suas ideologias.

Francisco é um herdeiro direto do Vaticano II e da guinada contra o atraso de mais de século da Igreja, na sua condenação explícita da modernidade, com Pio IX e Pio X. A força da crítica ao comunismo não se acompanhou da entrada no âmago do sistema adverso, de um capitalismo, a partir da crise de 2008, que conjugou a apropriação da prosperidade com o desequilíbrio, hoje, ínsito à sua dinâmica. Não bastará tomar o partido dos pobres, num tempo que pede os “olhos de ver”, e do “que fazer” frente, inclusive, à crescente falta de audiência dos poderes públicos, assaltados pela “guerra de religiões”, a retomada do enlace entre a Igreja e o Estado e o recuo dos direitos humanos.

Até onde a profecia desponta para trazer as exigências da cidadania à cristandade, prévias aos choques dos dogmas, e fiéis ao impulso fundamental do religare e às prioridades indiscutíveis de uma política de real mudança social? O papa argentino não quer embalar a tranquilidade preguiçosa de uma cristandade alheia ao compromisso visceralmente político para enfrentar um mundo sufocado pelo consumismo e a ditadura dos seus simulacros. Fugiríamos, de vez, ao que Paulo VI identificava à Igreja pós-Vaticano II como a da conquista diurna do “mais ser do homem e de todos os homens”. O Papa veio à esperança pelos gestos novos da despossessão. Mas é a mais exposta das virtudes cardeais ao anticlímax, ao quietismo espiritual. Francisco, ao contrário da santidade ecológica do “Poverello” de Assis, quer responder ao “aqui e agora” de uma modernidade exilada de sua consciência.


Membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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